Solto
23/10/11
Saio pelas ruelas, pela vida feliz e nostálgica que insiste em me perseguir.
Fujo, tropeço, caio e me refaço. Mas esse sentimento fuga(z) me acompanha.
No fim... no fim não quero me despedir. Não quero me despir. De olhos fechados amanheço na intenção de não me verem qual como sou.
Em contradição, reclamo da invisibilidade da existência. Procuro um sentido, uma explicação, um motivo para as coisas. Basta respirar: respire... respire... respire.
O extraordinário é demais. E a simplicidade me recompensa. E as hora... ah, as horas se refazem como gotas de um cubo de gelo que se desfez e então decide voltar atrás. Queria ter para onde voltar. Ter braços a me abraçar. Ter colo a me acalentar. Ter força para mover-me daqui.
Minha cabeça ferve. Não paro de pensar no que deveria ser, onde deveria estar, o que deveria ou não já ter feito... Me abandono nas horas como um menino bobo perdido no tempo. E sonho enquanto escrevo letras, palavras e frases que não fazem sentido nem mesmo para mim.
A linearidade, a mesmice, a rotina me descompassa, me enjoa. Sentimento de inveja daqueles que conseguem ser milimetricamente disciplinados.
O toque do calor vem e me desperta de um devaneio bobo. O meu pescoço estala e já não sei mais o que queria dizer. Se queria dizer. Porque diabos devemos dizer? Donde está a sensibilidade dos outros para perceber aquilo que não dizemos? Vivemos numa era de palavras.
Cala-te. Silencia. Deixe que apreciem o teu cheiro, os teus gestos, a suavidade das expressões. Onde está o poder de percepção do SER? Onde está a delicadeza do não dizer. A paciência do deixar-se entender.
Entendamo-nos. Compreendamo-nos. Para podermos compreender a vida, a física, a retórica, as questões existenciais e o nosso próprio silêncio.
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