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Mostrando postagens de 2023

Pisca Pisca

  Ano novo É pisca pisca Um ano vai E o outro fica   Luz que vaga Entre curvas e retas E quando se apaga Vejo o que resta   A semente indecente Não plantada que brotou E o que o fogo ardente Intencionalmente queimou   Recolho as cinzas Jogo na terra O vento espalha A água carrega   Sigo vigiando A luz no horizonte E com esperança no peito Atravesso a ponte

Aqui, não!

Quando sua própria mãe te diz que sente vergonha do formato do seu cabelo... Quando você se dá conta que os filhos queridinhos do seu pai são seus irmãos brancos... Quando na infância, você percebe que o tratamento que as suas tias dão a você é diferente daquele dado aos seus primos mais alvinhos... Quando você se nota desinteressante aos olhos dos meninos da sua escola ... Quando seus colegas de turma se ressentem porque você se destaca e usam da agressividade passiva pra te reduzir... Quando em um restaurante de classe média o garçom “informa” espontaneamente que aos fins de semana não são servidos pratos executivos... Quando você sempre é ignorada pelos atendentes das lojas de grife... Quando seu namorado não te assume, te mantendo na posição de puta, porque você não tem as “qualidades” de uma “boa” namorada... Quando em uma mesma situação de degaste as pessoas cobram de você força e resiliência, mas oferecem gratuitamente compaixão e solidariedade à uma pessoa de pele clara... Quan...

Julgada

Só me julgue Depois que estiver comigo Em uma mesa de bar Pra tomar umas cachaças Em uma roda de samba Pra exorcizar, da semana, as desgraças Em um meio-fio sentadas No alto da madrugada Pra filosofar sobre esta existência E as passadas. Aí talvez, só talvez... Eu possa te dar o benefício De por você ser julgada. 

Fruta madura no pé

Na escassez da vida É preciso estar atenta À fruta madura no pé  

Leitor

Me deixa ser teu livro Acaricia a minha lombada Escancara as minhas capas E me observa Me cheira Me toca Me lê  Percorre com dedos e olhos Cada linha do meu corpo Sem rejeitar nenhuma página  Tudo nua pra você  E quando não mais se conter Por êxtase e desejo Mergulha bem fundo no meu enredo Se perde dentro de mim Me devora E depois Pouco depois De capas bem fechadas Aguardo na estante Pacientemente ... Pelo meu próximo leitor

Cinza

 Me surpreendeu perceber que fiquei triste ao saber do seu corpo sobre outros  da sua boca entre outras de te imaginar trocando carícias e prazeres com mulheres que não eu Se é frustração se é medo se é decepção não sei dizer não sei por quê faz tudo perder o sentido acinzenta tudo em volta a razão entra em revolta a segurança, minha mão solta Será ainda amor, apego, desejo ou apenas o meu ego enjaulado,  gritando, rosnando o meu fracasso? me deixando a boca amarga o estômago revirado e na garganta um entalo o vai e vem do refluxo  que não me deixa  digerir o passado acumulado Eu não faço mais planos com você nem penso ou relembro  abandonei esse clichê o que doía antes já não me faz sofrer então por que  por que todo esse medo  de te perder?

Ponto cruz

O entremeio do bordado se mostra E impõe O ponto cruz O cruzamento entre medo e vontade Entre fragilidade e coragem Entre o Eu passado e o Eu futuro O ponto exato que demarca o território do agora Quem sou no agora! Quem sou no agora? Sou o que dou Sou o que FINJO ser Agulha espetou Sou o que DIGO ser Tecido desfiou Sou quem QUERO ser Deu nó e falhou Sou o que o OUTRO vê A linha acabou ... Até onde o que penso que sou E o que quero ser?

Escolhas

  Que nossas escolhas nos permitam enxergar adiante

Trajetória

  A insatisfação me mobiliza A continuar caminhando Em busca de uma utopia Um lugar idealizado que, Em fantasia , busco chegar Porém O tempo e os cruzamentos, Me ensinaram o contentamento Olhar para os passos dados Com orgulho e alegria Preenchendo de sentido a realidade   Acarinhando o meu Eu Em trajetória constante

Trauma

  O maior crime que podemos cometer a nós mesmas É relativizar cada trauma que já passamos É permitir que a fala ignorante de outro Ingênua ou brutalmente, Diminua a potência do que sentimos Ninguém sabe pelo que passamos Apenas nós Nosso corpo Nossa mente Nosso espírito Nossa memória.

Senso

  Aspereza Esconde Sensibilidade Em flor Em torpor Em odor Em dor

Barco

  Barco que tomba Na onda a quebrar Maré que bagunça As cartas do mar Seguir novas rotas Não quer desbravar Combustível lhe falta Medo de falhar Rema ou aporta? Cansou de arriscar O tempo sussurra Não posso voltar O vento revela Ousadia ou cautela Parado, afundará

Bordado-vida

Muitas vezes No bastidor da vida A agulha fere o dedo Mas quando o olhar se distancia O bordado é lindo

Cor

  Quando eu cor Me relaciono contigo cor Deixamos de ser substantivo E passamos a ser verbo Da inércia para a ação Coloriremos nós

Existência

  Derramo Evaporo Escoo Incendeio Esfarelo Queimo Quebro Ardo Para poder dar De novo Novo sentido À minha existência

A lógica

 Pela lógica, não faz sentido pelos sentidos, tem toda a lógica

Reencontro

  Como foi gostoso ver Seu olhar queimando em chama Seu corpo de prazer se contorcer Você preso sob o meu peso na cama Seu gemido entre dentes escorrer Murmúrio, sussurro, urro Enquanto gozava para mim Será que com as outras também é assim?

Rodízio

  Um enigma se põe a frente da cliente Do desafio que o espera, está ciente A tempos essa questão ronda a sua mente E agora avalia, como se sente   De que modo agir? Se apegar a memórias antigas e concluir? Ou explorar paladares sem languir E mesmo diante das inseguranças, persistir?   Dentre tantas opções, decidir arriscar O novo, desconhecido, degustar A segurança e a certeza, abandonar E em outros sabores, se aventurar   Premissa um: decepção A escolha de um sabor que não preenche Que contamina o prazer logo à frente Recheado de expectativa e frustração   Como pode ser? Degustar o que deseja e não gostar Sentir salivar a boca e não extasiar Permitir experimentar e não se entregar   Premissa outra: êxtase Bancar a decisão de explorar Deixar o inesperado admirar Um misto de surpresas encontrar   Por que não ser? Tão gostoso misturar fatias Doce, azedo, amargo, simpatia Se perceber livre...

Minha querida poeta

  Minha querida poeta, Escrever extravasa a alma Transborda o coração, Faz os ouvidos ouvirem aquilo que nenhuma boca falou Faz o corpo sentir o que a matéria não tocou Faz dizer o que o silêncio por muito tempo comportou Liberta o teu eu E segue trilhando Ora caminhos de trevas Oras caminhos de luz Abre essa caverna Salta do abismo Encara a fera E enfrenta o espelho Que te acompanha a cada passo Em cada esquina Da tua jornada

Terapia

É cansativo e satisfatório... jogar este jogo Enquanto quebro a cabeça Tentando formar uma imagem coerente De repente... Ela já não está mais na minha mente Peças se confundem, Regras se refazem Lógica e crenças pelo chão caem Irresoluto o enigma, Me persegue como estigma À medida que o encaro, o escancaro, o levo ao claro Paro Em meio ao desamparo E reparo, que é ele quem olha pra mim Entre encaixes e desencaixes Entre êxtase e decepção Eu me desmonto Eu me remonto De novo E de novo E de novo

Dois corpos, duas almas

É interessante como você se transforma De uma brisa leve e previsível Em um furacão avassalador e inebriante Você é a verdadeira força da natureza Olhos incendiam Corpo deságua Músculos petrificam Ter você em mim É um resgate selvagem De dois corpos De duas almas

Inequação

Hoje Sendo eu quem sou E sendo você quem é Nesta equação Um mais um  Não é nós dois

Palmas

Eu vejo você assim Todo suado E instintivamente Bato palmas Só não disse por onde

Palavras

  As palavras quando ganham liberdade Dançam, rodopiam, saltam e caem ao chão Se esparramam Se perdem Se confundem Fogem de contexto Negam a compreensão Mas cedo ou tarde Fazem todo sentido

Eu sou

Eu sou As marcas das minhas cicatrizes Eu sou Os vincos da idade na minha pele Eu sou Os cabelos brancos que se multiplicam Eu sou As curvas dos quilos a mais Eu sou Os pelos criminalizados Eu sou A imagem que a tela resiste em exibir Eu sou E vou continuar sendo!