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Quase

  quase que por castigo o destino me fez sentir o gosto do que quase poderia ter sido do que quase foi do que foi por pouco tempo e assim que foi, imediatamente deixou de ser e quando deixou de ser, não voltou a ser o que era mas levou consigo parte do que já foi levou consigo o vir a ser a vontade, o desejo uma quase esperança de nós dois despencou ladeira abaixo pequenos planos que se perderam no redemoinho de palavras soltas que se afogaram no brinde daquela bebida amarga se foram com a brisa salgada do entardecer na praia quebrou com as ondas desapareceu na areia agora percebo como me abalou ter de me despedir de novo em um ano de tantas partidas vou precisar deixar ir me forçar a ser assim abandonar a culpa, o culpado, o cuidado e que nessas circunstâncias, "o quase" nunca venha a ser eu quero ser sempre inteira no inteiro de alguém ser esse castigo, pode deixar cair esse quase, pode fazer ruir esse EU pouco, VOCÊ pode largar e partir a sua linha de chegada, não é aqui

Corpo

meu corpo é todo às avessas foge à comparação com essas ou aquelas no dedão, a unha roxa foi da trilha, a bota, apertada ou frouxa calos no calcanhar mania de quem não teme sair do lugar em minhas pernas, celulites nos meus braços, cicatrizes entre as coxas, assaduras nas virilhas, a negrura em pelo, as axilas as sobrancelhas, grossas linhas sob os olhos, as olheiras dentes amarelos, de quem bebe muito café e breja uns quilos a mais na cintura uma bela boia que me salva de qualquer amargura os cabelos assanhados cacheados, bagunçados e grisalhos o meu cheiro que exala a minha cor que não cala trago também um sorriso no rosto a vontade sem fim de provar de todo gosto de sentir o vento, acariciando a pele doar amor, afeto, não há a quem eu negue conhecer pessoas, conhecer lugares aprender sempre mais, ler não tem quem me pare escrever de vez em nunca dar aquele mergulho profundo, que nunca afunda enxergar na vida, a beleza e quando vier, sentir a tristeza reconhecer dentro, a fortaleza m...

Aventura

  Deixa eu te levar para uma aventura? Acampa sobre o meu corpo! E sem nem precisar usar as mãos Armo a sua barraca Diferente do habitual Você não vai entrar nela, Você vai entrar em mim Quando a noite cair Entre a penumbra das árvores E o som dos grilos Vou sentir o calor do seu corpo, colado ao meu Sua respiração na minha nuca Suas mãos no meu quadril Sua boca, procurando a minha E assim, como que por magia, As portas se abrem Se escancaram para você entrar Você manso e feroz Eu... selvagemente te acolho Fazemos arte sob um céu estrelado Dança e sinfonia Canção e coreografia Harmonia Entropia Poesia Combustão Deixem que vejam Que ouçam, que saibam Que sintam o nosso cheiro E a inveja Por não serem eles A não dormir toda a madrugada Em uma barraca, bem armada.

Casa de mim

 estou fora de casa fora da minha casa não me sinto dentro não me toco não me cheiro não me vejo distante! do que fujo quando me distancio? o que escondo quando fecho a porta e saio? caminho por quilômetros afora e quando volto, não estou dentro preciso embelezar minha casa deixar-me flutuar nas paredes desencaixar minhas rezas contemplar o tempo que passa... ... devagar.... dentro....fora... ao redor desempoeirar memórias vasculhar teias de um passado-aranha expor, despir, limpar, cuidar, curar e o inútil,  o que não for pra ter,  o que não combinar com a estética do novo ser deixar ir faço uma fogueira dentro de casa e deixo queimar qualquer vestígio de um lar que não é mais meu construo aqui e agora uma nova casa que me caiba sim eu casa de mim

Sangro

  Hoje é dia de sangue Sangro pelo meu ciclo Sangro porque é quinta-feira Sangro porque... Luto Para expelir padrões Prisões de décadas De gerações Sangro para limpar o útero Para o novo Que há de vir

Ciclo

Enquanto ainda estou tentando rebrotar Lançam sobre mim fardos e mais fardos De outros... de outras... Enquanto busco o equilíbrio após as sucessivas podas Cobram suporte, atenção, nutrição, ação  Enquanto encontro uma forma de me levantar do recorrente tombo Dizem dentre dentes que é minha obrigação erguer raízes, troncos e galhos "Você deve sustentar a floresta" - bradam eles em uníssono  Cobram-me cuidado por todos os lados  E não permitem que nem eu mesma possa me cuidar em mim Me curar de mim Quiçá eles, em um lapso de consciência, olharem para além de si próprios Dos seus comensalismos, dos seus inquilinismos Ervas brotam pelo meu corpo, sugam minha seiva, sufocam minha copa Não vejo mais a luz do sol Parasitada, apodreço Ponto de conflito interno Ponto de limite externo Pondero sob a terra O adubo que lancei A cultura que cultivei Eis a colheita que mereci Ao pó, retornarei Um novo ciclo, se inicia aqui

08 de abril

  o saudade que chama Feito flama Arde, queima, encolhe, dói Em cada palavra, sussurro Lembranças como um filme de fotos aceleradas Cadeira de rodas, linhas, agulhas, tecidos, novelos Os números do último sorteio da telessena De hora em hora o resultado parcial "Corre pra anotar, senão eu vou perder, vai que é dessa vez" E a esperança nunca morria Mas a senhora sim Se foi cheia de esperança de dias melhores E deixou memórias iscas, histórias âncora, sinais armadilha de um amor não mais concreto Que mancha e não larga, como noda de caju Que custa a passar pela garganta, se agarrando, quase asfixiando, como jaca mole Que incha na barriga como feijão com farinha Como chá de boldo que amarga qual todo remédio bom Uma hora passa, faz bem e cura Palavras cruzadas que não se encaixam mais... É o abraço de uma pessoa só Uma cama vazia As perguntas sem resposta A despedida sem a "benção mãe" São os sonhos por lugares e por pessoas que ficaram só na imaginação Aquele bordado...