Notas de uma despedida número 3 - O grito

Um Grito escalava a minha garganta

Com dedos asquerosos

Coroados por unhas longas e finas

Sem resquício algum de piedade

Me rasgava por dentro

Rastejava

Me asfixiava

Me entalava

Fechei os olhos 

E com toda força tentei degluti-lo

Teimoso, resistia

Os olhos em lágrimas 

A angústia instalada

Já reconhecendo minha impotência 

Imersa no caos que me rodeava

Uma sala de espera para a consulta com a ginecologista

Discursos entrecortados

Grávidas, aspirantes à grávida

E eu aqui, tentando fazer as pazes com enlutada memória da minha mãe 

Só quero voltar a ser filha, nada mais

E o Grito, latente, se mostrava presente

Caçoando da minha condição 

Fazendo pouco caso de mim

Debochando do meu sofrimento

Não posso gritar, pensei

Colocaria todo o meu esforço em risco,

Horas de espera

Filas em exames

Perderia não só a consulta, como a médica 

Para, no fim,  reviver tudo de novo

Ou seria o oposto?

Aprisionar o Grito me condenaria a um reset contínuo?

Já sentindo a explosão que viria

Travei a mandíbula

Tensionei os molares

Cerrei os olhos

Com vincos na testa e pregas nas pálpebras

Insisti furiosa, mais uma vez

Com a senhora na minha memória 

Com o seu livro no meu colo

Com a sua ausência no meu peito

Engoli heroicamente o meu Grito 

Que gargalhando, escorreu a contragosto pelo tubo esofágico 

Soltando a frase de efeito final:

Eu voltarei!

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