Desabafo
Onde estão as minhas garras?
Para onde foram minhas presas?
E meus pelos desgrenhados?
E o meu rugir vociferado?
Cadê a terra sob as unhas?
O instinto a intuição
Foi tudo imaginado
O sonho encantado
Um navio encalhado
Ou será mera maldição?
A mulher livre que eu era
Uivava, latia e rastejava
Corria, amava e odiava
Hoje é um ser latente
Que vive como toda a gente
Não ouve, não fala, não sente
Se finge de inocente
Se encontra ausente
Da sua missão
Não sabe o outro quando a olha
O quanto o seu coração chora
Se rasga por dentro, se devora
Quando ela irá despertar
Se erguer, uivar e resgatar
A sereia do fundo do mar
A bruxa da cabana
A fada, a ninfa ou a dama
Presa na gaiola ou na torre
Que esqueceu de lutar
Que não sabe mais empunhar
A voz, a vontade, a força
Se vê presa em uma alcova
Uma armadilha de escolhas
Que ela mesma criou
Se encaixando em bolhas
Que sem nem notar estourou
Se fazendo tola
Se bastando pequena
Se acreditando plena
Roubando de si as próprias vidas
Alimentando questões mal resolvidas
Rodando num carrossel sem fim
Carcomida pelos erros
Sendo reflexo do mesmo
Do mesmo
Do mesmo
Assim
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